DR entre o punk e a moda

Quando li a matéria na revista Veja dessa semana sobre a exposição “Punk: Chaos to Couture” do Metropolitan Museum, fiquei com vontade de comentar… porque acho que o jornalista (que provavelmente não é de moda) não entendeu a relação do punk com a moda…

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A matéria começa assim: “Anna Wintour, a mulher que inspirou o filme O Diabo Veste Prada, é uma celebridade em Nova York. Todos os anos, numa segunda-feira da primavera, Wintour, editora-chefe da Vogue, participa da abertura da exposição de moda do Metropolitan Museum of Art.” E prossegue falando o quanto as exposições de moda dos últimos anos foram bem-sucedidas, dando como exemplo a sobre Alexander McQueen em 2011, que bateu recorde de público, etc – isso tudo para mostrar a vertente mercadológica das exposições e poder dizer como “Punk: Chaos to Couture” é infiel à rebeldia e, porque não dizer, à “aura” do punk. Ele escreve: “Os elementos do punk estão todos lá: correntes, cadeados, alfinetes, lâminas de barbear, zíperes, coturnos, tachas, rebites. Só falta o essencial: a rebeldia. A alta-costura simplesmente não capta o ingrediente hostil e ameaçador da estética punk”. Só que não capta e nem poderia, porque a moda não funciona assim. A exposição tem a intenção de mostrar como a moda (e a alta-costura aqui representando seu mais alto escalão) se apropriou dos símbolos do punk (os alfinetes, as roupas rasgadas, etc) e ressignificou-os, transformando-os em algo cool e aceitável e inserindo essa estética em seu sistema que, vale lembrar, é fundamentado em vendas. A influência do punk na moda não é ideológica, mas imagética. 

Quando diz, já no penúltimo parágrafo: “Em seu berço (do punk) havia moda – ou visual, para ficar numa expressão mais aceitável para os punks -, mas a essência de sua estética sempre esteve na transgressão, na anarquia, na desconstrução”, parece que vai abordar a mudança de significado dos símbolos apropriados, só que essa ideia não é desenvolvida. Seria interessante aqui conceituarmos “moda”, mas para não me alongar muito nesse comentário, é suficiente apontar para a dissociação entre “visual” e “moda” – talvez entendendo a “moda” como um sistema mercadológico, como um estilo aceito pela maioria, e como isso estava bem longe da pretensão inicial do punk – que não seria moda, mas apenas um “visual” – que, na verdade, era contra o sistema (establishment).

O filósofo Lars Svendsen escreve no livro “Moda: uma filosofia” (Zahar, 2010) que “novas subculturas criam novas modas e tendências que são adotadas pela indústria. As subculturas  e contraculturas tornaram-se o melhor amigo da moda e do capital”. E explica:

Mas precisamente por ser “chocante”, esse estilo era um candidato óbvio a ser incorporado pela moda (ainda que numa versão diluída), já que é exatamente para esse tipo de efeito que a moda vem apelando há muitas décadas em sua tentativa de parecer inovadora. Esse processo, no entanto, faz com que o estilo subcultural seja rapidamente esvaziado de significado. Já em 1977 (…) o punk foi domesticado e tornado inofensivo por meio de artigos em jornais e revistas, cujo foco era como as roupas punk eram “bacanas”. Isso significava na prática que elas já tinham sido assimiladas pela moda de massa.

É sobre isso a exposição. Sobre como uma estética concebida como “caótica” (palavra usada no nome da exposição) foi domesticada pela moda até chegar na alta costura. E, devo dizer, isso não é nada novo, pelo menos para quem estuda moda! Quando à Anna Wintour, é só ver O Diabo Veste Prada (que ele cita no começo da matéria), ou o documentário The September Issue, para entender que ela sabe muito bem a influência que a Vogue americana tem nas vendas, ou seja, que a moda é mercado e entende o poder que ela tem nas mãos. Dela, não se espera nada menos que um blockbuster. E isso é ruim? É ruim querer ser comercial e vender muito? Essa discussão não vem ao caso. O que é preciso, entretanto, é entender os contextos das coisas e os porquês.

Não quero, de forma alguma, desmerecer o trabalho do jornalista em questão, que é um correspondente internacional respeitado da Veja. Só acho, sinceramente, que moda não é um campo de estudo dele, e que ele foi para a exposição alheio às suas engrenagens, esperando ver uma ode ao movimento punk e, diante disso, com certeza só poderia se decepcionar.

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2 Respostas para “DR entre o punk e a moda

  1. Excelente abordagem, Ana! Adorei!

  2. Olá Ana Claudia, vi que vai ter um curso de Fashion Forecasting no Senai começando este mês, e gostaria de saber se é você que vai ministrar. Obrigada!!!

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